E eis que sentada no seu canto, imobilizada pelos pensamentos que não paravam de lhe ocorrer, ela via três caminhos que se uniam na sua fronte, passado, presente e futuro. Três histórias já ocorridas, mas remetendo a períodos distintos, diferentes tempos verbais tomando conta do turbilhão de emoções. A confluência, tanto quanto revolta e perigosa, ela diria, de três rios de águas turvas, mas que, como num passe de magia, se tornavam límpidas e claras, tão claras quanto as lágrimas que há algum tempo não caiam do negrume de seus olhos.
O primeiro rio, vindo de tempos remotos, negro como uma nuvem tempestuosa, lançando raios de raiva e decepção. Chegou de modo inesperado, reviveu sentimentos e recordações há muito já enterrados e um quê de revolta deixou a pairar pelo ar, um sopro forte e ríspido de vento, uma trovoada melodiosa que remetia a acordes de guitarra, quando tocados com seu sofrimento.
O segundo, aquele que corria à sua frente, terminava abruptamente onde a sua vida continuava e crescia conforme a menina a tecia. Como um cachecol de linhas tricotadas pelas mãos de um peão de obra, mais parecia um novelo de fios embaraçados e confusos, tal qual se resumiam os seus dias. Ele trazia a mensagem triste, porém verdadeira, de que algo estava errado, ações erradas, expectativas erradas, pensamentos que deviam ser alterados. As linhas se soltavam como ondas e vinham algemá-la a uma esperança infundada que nem descrição requeria. É só uma esperança. Infundada.
E finalmente, o terceiro veio como uma redenção. O futuro que lhe esperava, ou aos outros, mas que de alguma forma lhe traria a salvação, ainda que indireta. Aquele que como uma bola de cristal mostrava as nascentes de outras águas tomando outros rumos que não os seus próprios, sem mais inundações de sentimentos errôneos, sem mais marés revoltas, aquele misto de acontecimentos que haveriam de ocorrer um dia, uma pitada de crença nas coisas boas. Acreditar era preciso.
E a confluência, bagunçada como haveria de ser, com o toque de mágica que lhe era de direito, fez o preto clarear, e a tempestade, bonança. Tudo mais claro, resolvido, quiçá. Não custa fechar os olhos e imaginar que essa confusão um dia cessaria. Só não se sabe se haverá final feliz, teçamos o nosso cachecol com o mistério caminhando ao lado.
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