Tinha um histórico de fugir da bagunça, muito embora a bagunça estivesse por todos os lugares em que passava. Ela era a bagunça. Rastros de desorganização na cama onde seu corpo exausto se estendia, no chão em que meia dúzia de sapatos estavam jogados, solas pra cima, nem um pouco supersticiosos. Na bolsa, onde versos carregados de sentimento se misturavam com desenhos psicodélicos e um bolo de canetas coloridas. Também havia espaço pra alguns nomes estranhos que - ela tinha essa impressão - significavam alguma coisa importante no passado. Talvez remetesse a algo sobre o seu futuro, que se encontrava a cada segundo um pouco mais distante e difícil de alcançar. A bagunça também estava do lado de dentro. Gostava e não gostava, queria e não queria, batimentos cardíacos descompassados e ritmados, como se houvesse um bloqueio seletivo dos receptores beta que, outrora, faziam-na suspirar. E chorar por nada, por que não conseguia chorar mais? E por que não conseguia sentir mais nada? Ela queria sentir saudades, queria se sentir apaixonada, queria ter prazer nas coisas, como há um ano ela era perfeitamente capaz de ter. Mas agora, nada além de fugir da bagunça que a rodeava, olhava pro teto branco em busca de refúgio contra a miscelânia de cores e texturas sob seu corpo, roupas jogadas no colchão, poeira sobre os móveis, não queria ver, não queria sentir, queria olhar pro teto branco e por lá ficar até que tudo voltasse ao normal. Olhava pra cima fugindo dela mesma, dessa confusão de sentimentos que tinha por dentro, queria ficar do lado de fora, segura, até que fosse capaz novamente. Capaz de ter prazer, de ter saudades e de se apaixonar de novo.
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