sábado, 2 de outubro de 2010

- o quadrúpede chamado idade;

O que a gente faz quando se sente velho, muito velho, muito embora não tenha vivido o bastante, aprendido o bastante. Você se olha no espelho e não é mais como aquela juventude doce dos fios sedosos, as sobrancelhas grossas e desajeitadas, a vaidade que não chegava. Agora eu me vejo, veja bem, esses pelinhos que crescem e cadê a minha pinça. E esses cabelos de mocca, eles costumavam ser de café expresso, forte, preto... e eram cheios, bonitos, lisos. Agora um cabelo de mocca, com textura de palha, espessura de um punhado de barbantezinhos daqueles bem finos. E essas marcas cansadas, essa coisa que eu vejo e ao mesmo tempo não vejo, quase como se tivesse nas entrelinhas do meu rosto os dias que eu sofri, as noites em que insone estive. E é a idade que chega, esse quadrúpede galgando seus passos na minha cútis, deixando seus rastros no canto do olho, suas sombras depositadas na minha pálpebra. É a sabedoria que chega, a experiência talvez, esse fardo que carrego nos meus cílios, junto com esse rímel que só sai se esfregar muito, mas com cuidado pra eu não virar um panda. Esse fardo, sim, esse peso que puxa minhas pálpebras, chama meu sono, me nina e me bota pra dormir.

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes