quinta-feira, 25 de novembro de 2010

- nostalgia;

Me lembro bem daquele prédio amarelo, ele parecia tão grande, tão majestoso. Eu precisava ficar na ponta dos meus pés para enxergar do outro lado do muro, será onde que o mesmo bate na minha estatura hoje? Eu me lembro da janela do meu quarto que dava pra casa do meu vizinho  Breno e de como eu odiava o fato de que todos os meus com-quem-serás eram cantados com ele. Na sala da minha casa, a copa de 94, lembro de muitas pessoas assistindo ao jogo final e eu lá, no meio daquele monte de adulto, sem saber que time era qual, só queria saber mesmo era dos bonequinhos da coca-cola. Adorava. Da janela da sala dava pra ver a avenida Professor Fernando Duarte Rabêlo, Goiabeiras, eu gostava de lá. Também lembro o nome do edifício, Karinúbia, que tipo de gente bota esse nome em um prédio? Atravessando uma pista e a ciclovia, a tia Célia me esperava com a kombi que me levava pro colégio, em frente à Lyrio. Ah, eu odiava perder aula, sério. E eu era apaixonada pelo filho da tia Célia, o Altivo, ele estudava comigo e hoje em dia tá muito feio que eu sei. Lembro da copa, tinha uns armários de madeira bruta, muito bonitos, eu ficava passeando com minha motoca rosa em volta da mesa achando tudo aquilo o máximo. E logo depois vinha a cozinha, não tenho muitas recordações de lá, sei que, em um episódio fatídico de revolução infantil, eu fiz xixi naquele chão. Eu era meio rebelde. E vinha a varanda, lá tinha dois tanques que eram piscinas das minhas barbies e tinha a minha piscininha de plástico azul clara com ondas escuras, uma daquelas que todo mundo já teve. No quarto de bagunças só tinha bagunça, mas eu me lembro de ter brincado com o alicate de cutículas enferrujado lá e, óbvio, tirei o primeiro bife da minha vida. Também me lembro que no banheiro do quartinho de bagunças ficava guardada a minha pipa, uma que meu pai me deu e que se controlava com duas mãos, mas que eu nunca soube usar. No quarto da minha mãe tinha um banheiro com azulejos azuis marinhos. Me lembro de voltar da Curva da Jurema e me enfiar naquele chuveiro, foi a primeira vez que eu tive coragem de tomar banho sem a mangueirinha, me senti tão adulta. E na cama da minha mãe, sobre uns papelões, eu chorei por horas no meu primeiro - e único - castigo. Eu mordi a bunda da minha madrinha, foi merecido. Ah, aquele prédio amarelo. Sinto falta dele, e essa memória tem cheiro de festas de aniversário, do meu pai chegando de viagem cansado, da caixa de bombom personalidades da Garoto que eu comprava com minha melhor amiga de infância Marília. Aquela avenida movimentada, o cachorro-quente que vendia à noite, mas o meu é sem molho e só com batata e dois ovinhos de codorna, por favor. O copo de guaraná vinha de brinde. Ah, edifício Karinúbia, apartamento 101. Aquele prédio amarelo e majestoso, que me lembra a aurora da minha vida, a minha infância querida que os anos não trazem mais.

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes