terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Soul Washer

Havia feito do tanque o seu muro de lamentações.
Constatou esse fato após notar que não era a primeira vez que sentia suas lágrimas se misturarem à água turva que escapava do pano encardido.
Esfregava aquele retalho com toda a força que a sua fragilidade lhe permitia e, enquanto sentia seus dedos esfolarem, uma espécie de frenesi invadia o seu ser.
Convivia com o instinto masoquista há tanto tempo quanto a sua fraca memória lhe admitia recordar. O arrepio que corria pelo seu corpo quando o sabão penetrava a sua ferida e provocava ardência era a melhor sensação que já tivera o prazer de sentir. Mas não era um sentimento exclusivo de feridas e sabão - quando mais jovem, usava o alicate de unhas para cortar o antebraço, desenhando figuras diversas. Ainda era possível ver as marcas que os desenhos, outrora vermelhos de sangue, fizeram na pele de marfim.
Com o pano alvo, por ação do esfregaço e das lágrimas, seguiu ao móvel empoeirado, sobre o qual uma série de fotografias induziram uma retrospecção de sua vida.
Enquanto limpava cuidadosamente cada um dos quadros enfileirados sobre o aparador, se permitiu olhar para o espelho localizado em sua frente. Ao comparar o reflexo de sua imagem com as sorridentes figuras dos retratos, percebeu como o tempo passa até mesmo para aqueles que não completaram ao menos duas décadas de existência.
A pele de pêssego e os olhos expressivos deram espaço a uma pele escurecida por olheiras e olhos opacos. Os cabelos que antes lhe caiam como um véu castanho pelas costas estavam, agora, ralos e despenteados. As cores vibrantes das figuras não condiziam com o seu presente.
"Triste" - murmurou. E seguiu ao seu poço de lamentos, clarear o retalho já enegrecido pelas velhas recordações.


2 comentários:

Carlos Augusto Costa disse...

Queria ter inspiração pra escrever sempre de forma literária.

Nárriman disse...

Senti minhas falanges ardendo...rssss

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes