sábado, 25 de dezembro de 2010

- João-bobo;

 
 E então de repente ela era criança:
Vestido rodado, fitas, organza,
Janelas abertas, sorriso espontâneo,
Piques, bonecas, desenhos, ciranda.
Ela é só uma criança, deixe-a brincar!
E hoje é Natal, vamos comemorar!
Dê-lhe o embrulho, será que ela gosta?
Sentada na roda, o pacote a rasgar,
Surge João-bobo, prosa, a bailar.
Um soco pra cá, um soco pra lá,
De um jeito ou outro ele levantará.
"Mas que atrevido", resmunga a ranzinza,
"João, esse bobo, não quer arriar!"
"Não pense, boneco, que eu desistirei:"
"Um soco por vez e derrubo de vez."

Não tão de repente esvaiu-se a infância.
As obrigações adentraram na dança.
João-bobo esquecido no fundo da arca
Seria não mais que uma velha lembranca,
Não fosse tamanha obsessão da criança.
Sorrateiro, o boneco, invadiu-lhe o caráter,
De modo que, adulta, João-bobo tornou-se.

E então de repente ela era um boneco:
Caráter inflável, saco de porradas.
Um soco pra cá, um soco pra lá.
João, esse bobo, levantar-se-á?
"Espero que sim, talvez leve tempo".
"Há muito - é o que dizem - esteve guardado"
"No fundo da arca das mentes inquietas"
"A chaves, correntes e alguns cadeados."

Não pense, contudo, que desistiria
Embora João-bobo, era perseverante
A cada porrada, seguia adiante
E assim prosseguia vivendo seus dias.

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes