Embora pareça repetitivo, lá estava ela recostada novamente. Ouvia o tilintar das gotas pesadas na calha metálica, uma canção entoada ao fundo na voz da infância mais tenra e inocente, observava a pintura surrealista que os pingos de chuva desenhavam na parede vermelha avistada pela sua janela. Vermelha como as festividades que se aproximavam.
"E então, minha cara, é Natal. O que você fez?" Perguntas ecoavam nas grutas da sua mente.
"Nada", era o que conseguia pensar.
"Li alguns livros, vi alguns filmes, escrevi alguns textos. Chorei algumas lágrimas, gargalhei alguns minutos que, somados, dariam alguns dias da mais pura essência de felicidade. Suspirei mais vezes que eu gostaria, por querer e também por não querer. Me recolhi sim, mas ao mesmo tempo me abri com pessoas com quem jamais imaginaria desabafar algum dia. Tive meu coração partido e remendado e, assim, acrescido de mais algumas cicatrizes, permanentes, como haveriam de ser. Dancei até o nascer do sol e bebi mais que nos anos anteriores, mesmo que isso seja pouco. Aprendi novas línguas, mesmo que por somente alguns minutos, e essa parte você pode entender como quiser. Aprendi novos termos médicos e me aproximei um pouco mais desse sonho, que talvez não passe de um objetivo no fim das contas. Me decepcionei comigo e com os outros. Me reconciliei com pessoas do passado, soldei elos rompidos com a esperança dos dias que viriam. Senti saudades e continuo sentindo..."
Mas o que de grandioso haveria nisso? Nada.
Então é Natal, o ano termina, começa outra vez, e ela não havia feito nada pra mudar a sua vida.
"E o mais gozado disso tudo", pensava, "é que ainda assim eu me sinto feliz."
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