terça-feira, 13 de julho de 2010

- transfiguração;

Agora, distante do que lhe afligia, lembrava-se com muito mais clareza daqueles dias.
Olhos cortantes que encaravam a palidez da menina apaixonada. 
Um coração que batia descompassadamente ao sentir o cheiro doce a se aproximar. 
Palavras perdidas em meio a uma imensidão de frases não ditas.
Pensamentos impuros que saltavam sorrateiramente em horas inoportunas. 
Uma verdadeira profusão de sentimentos lotavam a vida da pobre garota de confusão.
Agora, distante, a hipérbole outrora vivida numa metonímia se transformou.
Se perguntarem-na sobre a paixão avassaladora, dirá ser uma carência excessiva.
Acerca do cheiro doce inebriante, revelará ser apenas cheiro de gente.
Os olhos cortantes se revelarão olhos conhecidos e desinteressados.
Muitos outros sintomas simplesmente desaparecerão.
E a vida voltará ao normal. 
 Ou ao anormal, depende do seu ponto de vista.

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes