domingo, 5 de julho de 2009

Sobre rancores e ressentimentos.

Foi aos nove anos de idade que eu ouvi pela primeira vez o termo divórcio. Minha madrinha me chamou em um quarto e me disse que os meus pais estavam brigando muito e pensavam em se separar. Me explicou que provavelmente haveria um juiz, e este senhor mediaria uma disputa pela minha guarda entre minha mãe e meu pai. Não sei ao certo, mas algo me diz que foi neste momento em que eu aprendi a sofrer sozinha.

Os dias que se seguiram foram de intensa ansiedade. Eu esperava que a qualquer momento eu veria meus pais chegarem juntos, em um último momento de cumplicidade, dizerem que queriam ter uma conversa comigo. Uma conversa sobre separação e juizes. Nunca falei sobre a minha conversinha com a minha madrinha com ninguém - muito menos com eles. Eu achava que se eu compartilhasse esse sofrimento, acabaria acelerando o tal do divórcio e a temida disputa no juiz. Eu, na inocência da minha infância, acreditava que este senhor me proibiria de ver um dos meus pais... e que criança desejaria isso?

Bom, a notícia tardou (3 anos, pra ser exata), mas chegou. Não foi como o último ato de cumplicidade que eu imaginava. Foi o primeiro ato de intensas brigas e injúrias entre meus progenitores. Eu estava deitada na minha cama, ciente de que algo sério estava acontecendo, mas sem coragem de perguntar a ninguém. Sofrendo sozinha, como já era rotineiro na minha vida. Eu já havia adormecido quando minha mãe entrou no quarto e explicou que ela e meu pai não estavam mais juntos. Não sei se pelo sono ou pela expectativa que eu tinha desde os nove anos, eu nem me importei tanto assim. Conviver longe do meu pai não seria tão difícil - eu só o via nos fim de semanas, quando ele voltava de Quissamã (onde ele trabalhava) e ia pra casa.

A recepção da notícia pode não ter me abalado, mas o processo da separação promovido pelos familiares não foi muito agradável, ainda mais se tratando de cidade pequena. Eu passei a ouvir parentes tomando partido na separação e me dizendo coisas sobre meus pais que eu não deveria sequer saber. Mas eu nunca comentava nada do que sentia com ninguém. A essa altura do campeonato, sofrer sozinha era normal. Coincidência ou não, foi com meus doze anos que eu adquiri meu primeiro diário, como se fosse um tipo de fuga, um desabafo.

Com o correr dos anos, perdi a assuidade da escrita nesses cadernos e agendas, mas ainda carrego um em minha bolsa. Tento escrever sempre que alguma coisa me machuca muito, evitando uma explosão de lágrimas e nervosismos... mas nem sempre eu tenho essa disposição. São nessas horas em que acontecem as minhas brigas. Geralmente com minha mãe.

Não há coisa que eu mais deteste no mundo do que brigar com alguém. Eu devo ter algum distúrbio de carência, ou medo de rejeição que me impede de impor minhas ideias. Se algo me revolta, eu me calo, engulo, sofro sozinha... tudo pensando em como eu odeio estar brigada com alguém. Como eu me sinto muito mais sozinha do que eu sempre fui. E isso, querendo ou não, me faz cada dia mais amargurada e depressiva.

Comecei a apelar pros calmantes e descontar toda minha ansiedade na comida. Comecei a preferir ficar longe da minha mãe e evitar ao máximo ligações. Tudo por querer evitar confusões. Eu, aos poucos, fui me afastando. E agora somos quase estranhas uma pra outra. Ela não foi confidente das minhas angústias, dos meus momentos marcantes... a gente já estava meio distanciada nesse momento. E isso faz com que eu me sinta horrível, como uma filha desnaturada que optou por negligenciar a própria mãe. Mas o que eu posso fazer?

Eu continuo a amando imensuravelmente.
Mas tem certas coisas que são simplesmente difíceis de consertar.

3 comentários:

Anônimo disse...

Rá, nenhum desses momentos que vc passou (sozinha) eu deixei de estar c vc!! E lembro de cada um deles mas, sabe existe alguém muito maior , alguém que te escuta a cada dia, que sabe suas angústias , seu nervosismo, sabe quando vc quer chorar e não te deixa chorar sozinha nunca!!
Lembre sempre que vc tem um amigo fiel, alguém q não te esquece nunca, alguém q te fez para ser feliz e que te ama incondicionalmente. Busque a Deus, Ele te completará, te compreenderá sabe por quê? Porque Ele te ama muito e isso não é um conto de fadas ou uma historinha em quadrinhos. É real Deus está com vc ele deixou conosco o Espírito Santo para nos consolar porque sabia que não passaríamos por momentos fáceis aqui! Converse com Deus, diga somente a Ele suas necessidades porque ele é um amigo e não um Deus injusto e distante!
Não esqueça também que mesmo com a distÂncia estarei aqui!!bjoo!!Te amoo!!

Camih disse...

tudo pensando em como eu odeio estar brigada com alguém. 2


mas nem sempre é melhor assim, né?
eu parto do princípio de que as vezes é melhor você despejar tudo em cima da pessoa e talvez faze-la sofrer contigo do que engolir...dispensa muito do seu sofrimento.

Unknown disse...

A gente tem que parar de pensar em evitar todos os rancores do mundo, achando que quem tem q sofrer é a gente e sozinhas. ;/

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes