terça-feira, 22 de novembro de 2011

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Por duas vezes me tornei anérgica no meio da rua, sem saber que direção tomar.
Não me decidia se ia ou ficava, e então parei, enquanto pedestres afoitos viravam seus pescoços pra me encarar. Imagino o que eles estavam pensando de mim, mas certeza mesmo, eu não tinha nem dos meus próprios pensamentos - se é que havia, naquele momento, alguma sinapse acontecendo no meu cérebro.
Eu simplesmente não me lembro. 
Não faço ideia de por quanto tempo permaneci ali, estática. Não faço ideia nem se de fato permaneci.
Olhar perdido em eventos imperdíveis, interiorizados e omissos à curiosidade alheia. Pisquei, piscou, me situei, me situou, segui em frente, ele ficou. Incerto ele, incerta eu, fui ao seu encontro.
Corpo procurando espírito, que procura alma, que procura gêmea, que procura a mesma alma que o corpo desespiritualizado quer. Desencontro. 
Olhos errantes abertos perante à transitoriedade do mundo. Cegos. Efêmeros.
Por duas vezes me vi como você, anérgico, no meio do nada, sem saber que direção tomar.
Não se decide se vai ou fica, e então pára, enquanto eu, afoita, viro meu pescoço ativa, passivamente a uma pegada mais forte. Pra te encarar. Imagino o que você pensa de mim. Você me daria certeza se eu te perguntasse, mas eu tenho medo da sua sinceridade. Seu racionalismo infere em muitas sinapses simultâneas montando uma impressão sobre mim.
Eu simplesmente não quero saber.
Não faço ideia de por quanto tempo você vai permanecer estático. Mas eu tenho plena consciência de que eu não posso te esperar pra sempre.
Seu olhar perdido em eventos imperdíveis, interiorizados e omissos à minha curiosidade. Eu pisquei, você não piscou, eu me situei, você se situou, eu segui em frente, você ficou. Certo você, incerta eu, não mais ao seu encontro.
Corpo procurando espírito, que procura alma, que procura a gêmea, que procura a mesma alma que o corpo desespiritualizado quer. Alma gêmea. Não encontro.
Olhos fechados perante à sua desilusão. À minha desilusão.
Não mais cega.
Não mais efêmera.
Apenas real. 


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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes