domingo, 13 de março de 2011

- hello, compulsão, my old friend;

A cada dia que passava tinha mais certeza de que nada ou ninguém completaria a sua  vida. 
Talvez a sua compulsão fosse a única a compreendê-la, afinal de contas. Mas tinha que confessar: a sua relação com a comida era um pouco doentia... comia para ficar feliz, embora, concomitantemente, entristecia-se ao sentir o bolo descendo pelo seu esôfago, forçando o cárdia para achar um cantinho na cavidade gástrica. Sabia que atitudes drásticas como essa possuiam efeitos trágicos, como haveria de ser.
É difícil descrever a sensação que o "comer" provoca. É incontrolável. É não sentir o gosto da comida e sentir-se plena apenas pelo ato de mastigar, a sinfonia do alimento sendo demolido pelos dentes. É tirar um novo biscoito do pacote e levá-lo à boca sem mover os olhos. É perder a conta do quanto já comeu e simplesmente não conseguir parar até que tudo acabe. É não saber parar.
Aliás, não sabia parar em vários aspectos. Não sabia parar de comer, de se importar com quem não se importa, de não se importar com quem se importou, de cair de amores pelas pessoas mais inacessíveis possíveis, de chorar escondida e de falar sozinha. Não saber parar talvez fosse o maior de seus problemas... ou pelo menos o estopim para a deflagração de todos eles.
É difícil admitir - pensava - é difícil assinar um contrato que diz com todas as letras que você não consegue lidar com os próprios problemas sem hiperbolizar alguma das suas vastas manias doentias. Mas é assim que se sentia. E era preciso compartilhar.

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes