Não há palavras no mundo que descrevam com fidelidade a sensação que a preenchia. Um quê de vazio, de solidão, de incompetência. De todas as imagens que se formavam na sua mente - revolta em pensamentos soltos - a que mais se aproximava da sua verdade era de uma esfera, daquelas de vidro, em cujo interior miniaturas se dispõem em uma realidade paralela. Ela era a miniatura. A única a se encontrar estática no interior do objeto vítreo, a observar as pessoas que não paravam de tecer os próprios relacionamentos por detrás das paredes, se assim pode-se chamar a linha frágil que delimita os dois ambientes. Como aranhas. Aracnídeos costurando a fina linha de seda, prendendo outros de sua espécime, atraindo-os em uma dança sensual, cheirando a feromônios, uma cena assaz marcante para ser meramente esquecida. A pobre humana, no entanto, por detrás de sua bolha não era inclusa na tecelagem, não era presa por ninguém, sequer era lembrada. Ela permanecia estática, solitária, enfeitando algo como um mundo particular a que ser algum tinha acesso, senão ela própria. Enquanto na sua mente, aquela cujas marés criativas vinham em regime turbilhonar, pensamentos sórdidos vagavam. Um desejo íntimo, negro de vergonha e ciúmes, de que as aranhas de enforcassem nas próprias teias ou que, em um desfecho memorável, todas fossem viúvas e, assim, ao fim do acasalamento, devorassem as entranhas do parceiro até que ninguém restasse para assombrar os seus sonhos.

Um comentário:
aumentado, daria um conto a la clarice lispector. muito bom.
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