Eu poderia fazer qualquer coisa entre uma série de duzentas abdominais e um cochilo despretensioso numa tarde saturnina, mas eu estou aqui. Pensando na sua incoerência. Racionalizando todos as ínfimas equações cujos resultados seriam você, exceto por você não ser. Exceto por mim. Exceto pela exceção que sou a todas as regras dos contos infantis, a todas as morais de todas as fábulas lidas e jamais interpretadas corretamente enquanto inocentes infantes. Exceto por nós, que somos dois e não um, como os astros outrora me disseram que assim seríamos. Eu poderia simplesmente imprimir nossa história em papel reciclado, rasgá-la nos milhões de pedaços em que minha esperança se fez, e jogá-la ao vento, aos pássaros, ao diabo. Toma essa, universo (diria eu) revire-se pra juntar os retalhos desse conto que não vingou. Remende esse trapo de papel, que do meu coração cuido eu. Mas pra que destruir linhas de um texto que não foi finalizado? É que eu sou sempre assim, meio poeta demais. Fantasiosa demais. Fazendo Austen demais em uma existência fadada a Lispector. Lendo um pouco mais Vinicius que o necessário (talvez eu devesse suspender as doses diárias do Poeta da Paixão em prol de paixões não tão platônicas, verdade seja dita). Mas é que reproduzir seus movimentos em métricas ritmadas de dois quartetos e dois tercetos é tão mais agradável aos meus sentimentos... você também não acha uma vida em rimas muito mais propensa à eternidade que uma prosa entediante? Palavras musicadas são muito mais fáceis de guardar, e eu quero guardar você em mim. Quero registrar a sua história na minha história, mesmo que isso só ocorra em diários ocultos, não no plano físico. Não quero ser imortal com você (posto que somos chama), mas seríamos eternos enquanto durasse. Nem mesmo a morte é páreo pra uma vida vivida em Sonetos de Fidelidade.

Um comentário:
Teus posts são propensos à eternidade pelo prazeroso baile que fazes com as palavras. Rayra, escrevendo cada vez melhor.
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