sexta-feira, 7 de maio de 2010

- vejo, não posso;

Sentada no coreto, eu vejo a praça girar ao meu redor, carregando todo o mundo em suas costas.
Vejo crianças no parque. Não sou mais criança, não posso me levantar e dançar ao som das cirandas.
Vejo idosos jogando cartas nos quiosques. Não posso me levantar, não tenho metade da experiência demandada para montar três trincas em sequências de números de mesmo naipe. Ou número iguais de naipes distintos, por que não?
Vejo casais enamorados em uma confusão de braços, beijos e suspiros. Não posso me levantar, não sei o que é ser amada, nunca ninguém gostou de mim como eu quis.
Vejo passantes, trabalhadores, mendigos, turistas, aposentados, recém-nascidos, desconhecidos, anônimos, uma multidão. Não posso me levantar, eu sou um ser humano calcificado pelo não-amor, pelo não-amar, pelo não-fazer... pelo não-existir. Eu sou uma estátua, rígida por fora, amolecida por dentro.
E, desde ontem, conformada com isso.

2 comentários:

Unknown disse...

seu textos são lindos, mas prefiro ver você escrevendo um texto que, pode até ser horrível, mas feliz. Não quero vc triste =/

Ana Caroline disse...

Own! Ótimo texto, porém triste :(
beijo

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Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso - é a minha vida.

Vinicius de Moraes