De onde se encontrava, tudo o que podia ver era o beijo fugaz de duas das quatro faces de um paralelepípedo.
Estava sentada em uma cadeira simples de madeira, tão desconfortável quanto possível, localizada diagonalmente às paredes brancas da sala vazia. Dialogava com uma voz, mas não saberia dizer se era seu consciente, seu subconsciente ou se um segundo alguém, oculto no amplo espaço que restava às suas costas. Distraía-se pendurando quadros coloridos pelo cômodo com o poder de sua mente. Falava desconexamente enquanto as figuras apareciam, mas um piscar de olhos e os ornamentos caíam.
"O que você está vendo agora?" O que estava vendo agora?
Olhou pra frente, pros lados, pra baixo. Viu-se vestida em uma longa camisola branca de algodão, mangas compridas, gola alta, pés descalços. Seus cabelos estavam soltos? Não saberia dizer. Viu seus braços abraçando-se ferozmente, suas unhas fazendo um sobrenatural esforço para atingir a pele sob o tecido amarrotado de seus membros superiores. "Não vejo nada, nem a mim mesma."
"Não sei onde estou nem o que faço. Sei que deve haver uma razão em tudo isso, mas... há mesmo de haver um motivo pra tudo o que se faz na vida? Você sabe o que faz, o que vê e o porquê de tudo isso, o tempo todo na sua existência? Você conhece toda a verdade? Há uma verdade em tudo? Deve ser triste ser assim, tão metódico, analítico, raquítico humor. Me arrisco a dizer que falta imaginação no mundo. O que você vê?" Via o o que havia.
"É isso a que me refiro. Você vê o que há, eu não vejo nada. Mas em contrapartida, eu carrego o mundo por dentro e consigo ver tudo o que eu quero, quando eu quero, se eu quero, com quem eu quiser. Sinto muito se tudo o que você enxerga é o pedacinho de mundo que você julga ser a realidade."
E enquanto falava, as faces pálidas se afastaram e o mundo se abriu em psicodelia.
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